sexta-feira, 9 de abril de 2010

Mais uma vez

Ela tinha inúmeros motivos para acreditar que dessa vez, tudo ia ser diferente. O céu era sempre mais azul, o vento sempre mais sutil, o sol, mais quente e envolvente que da última lembrança que vinha na cabeça de Alice. Ela tinha certeza que aquela vez era "a vez". A última. De tantas outras tentativas frustradas. Mais uma página virada, outra história montada, misturada e invertida. As páginas trocadas a fizeram acreditar num conto errado. Não exatamente errado, mas não o conto dela. Pelo menos não o que era pra ser contado com seu nome e suas dores. Nem príncipe em cavalo branco, nem vampiro maldito em Volvo, nem mesmo um cara no ponto de ônibus.
As madrastas da vida a faziam lembrar que toda cicatriz era verdadeira. Que cada uma delas contava uma história. Mesmo que essa cicatriz não aparecesse pra todos. Mesmo que não aparecesse pra ninguém, nem mesmo pra ela. E também tinham as cicatrizes que ela optava por fazer. Cada uma lembrando de suas loucuras, seus brilhos, sua liberdade, a rainha branca dentro de si, uma proteção, um enfeite simples. Muitas delas. Nenhuma que alguém soubesse o real significado. Ninguém nunca se interessaria em saber. É o livro que ela escreve que ninguém nunca vai ler. O céu era o mesmo, o vento, gelado e cortante como sempre, o sol, sempre lá, quase não fazendo diferença. Não brilhava mais nem menos. Era o sol mais estático dos últimos 1987 anos. Mais uma vez Alice sonhou acordada. Mais uma vez, Alice estava atrasada.

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