domingo, 23 de maio de 2010

Sem pressa

Eu já não tenho mais a minha exceção. Já não existe mais o, "por você", e é tão estranho não sentir nada e saber, ou ao menos acreditar que eu deveria senti-lo, por mais escroto e infeliz que fosse esse sentimento. É um vazio. Um buraco novo.
E não adianta cobrir um buraco com terra de um buraco novo. Ou um velho... As vezes acontece.
As feridas deveriam cicatrizar naturalmente. Sem pressa, sem forçar. O tempo não permite. Ou a falta dele. Se é que ele ainda existe.

O fato de não saber ao certo se sou eu quem controlo meu destino ou se é exatamente assim que as coisas deveriam acontecer é tão frustrante quanto o fato de não saber o que fazer. Ou como me sentir.

Não me ensine a viver. Nem do que eu devo gostar. Eu mesma já não sei mais o que fazer e, o fato de ter outras pessoas me direcionando só faz com que eu fique mais perdida.
Eu não sei pra onde quero ir, então qualquer lugar me serve.

Te encontro por aí. Sem pressa...

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Universos Paralelos

Já te contei sobre a história dos Universos Paralelos? Não? É assim:

Dizem que tudo que você deixou de fazer nesse mundo em que vivemos por qualquer motivo que seja, por medo, por pressa, por pura preguiça, acontece num Universo paralelo igualzinho o nosso. Nada extravagante do tipo: No meu UP1 eu estou sentada em uma espreguiçadeira nas Bahamas tomando minha vodka com suco de laranja enquanto espero minha porção de camarões e lagosta Pinchy ficarem prontos. São coisas simples.

Aquele oi que você não retribuiu, aquele cartão que você decidiu não deixar na mesa daquele cara que você sabia que estava te olhando enquanto devorava seus waffles com cobertura de morango, aquele beijo que era pra ser o último, nesse Universo paralelo é só mais um. Um beijo com a intensidade de último, mas com amor do primeiro, ou o tesão do terceiro.

Tem um UP que começa assim:

Alice acorda, olha pro relógio, decide dormir mais dez minutos, acaba dormindo vinte. Levanta apressada, veste seus jeans, sua camiseta branca favorita e seu salto. Quase esquece o colar com a plaquinha retangular que ela tanto adora. Dá "proteção". Pega as chaves do carro. Um Camaro 69 que consome mais alcool que ela em um dia. Duas portas, confortável e grande o suficiente pra tirar um cochilo na estrada quando dá vontade. Sai voando da garagem do prédio, pega a Avenida no sentido contrário que deveria ir pra cortar caminho. Ela se atrasou, sabe que o trânsito tá "fudido" por aqueles lados. Para antes pra comprar café pra levar pro escritório. Um pra Rafaela, o do Maurício é sem açúcar e pra mim nada de café. Ela sabe que eu não gosto. Resolve trazer uma coca. Na saída, prende o salto na calçada e perde bons dois minutos pra tirá-lo de lá, corre até o carro, estaciona duas ruas antes. Encontrou a vaga mais apertada do mundo pro Camaro dela, paciência, se baterem o seguro paga. Ia subir as escadas, decidiu pegar o elevador que milagrosamente estava vazio. - "É, eu tô atrasada né.." Chega na reunião, toma uma bronca de leve mas é logo perdoada pelos cafés que trouxe. Menina esperta, não dá ponto sem nó. Trabalha, conversa, sente saudades de alguém, recebe uma mensagem. - Vamos jantar fora hoje, você escolhe o restaurante. Te amo. - Vai pra casa, se troca, ele chega, cansado mas com o maior sorriso do mundo estampado no rosto. Ele liga o som, eles cantam e vão jantar. Nada de muito interessante nesse dia em particular.

No mundo real dessa história, as coisas são diferentes:

Alice acorda, decide que tem que chegar cedo no trabalho, levanta correndo, come uma torrada, veste sua calça jeans, sua camiseta branca que tem uma manchinha do lado esquerdo embaixo. Ela não sabe dessa manchinha. Nem reparou que a camiseta favorita dela estava logo do lado. Esquece o colar de plaquinha da tal da "proteção". Pega a chave do carro e vai sentido escritório no caminho convencional, chato de sempre. Liga o som. Nada de som baixo, ela precisa acordar, não vai dar tempo de comprar café hoje. O trânsito tá mais ou menos. O celular toca, ela atende. No meio da conversa o celular escapa da orelha, cai no chão. Do outro lado da Avenida, o motorista do caminhão não percebe o carro parado perto da faixa. Descuido da motorista, descuido dele. Não vê que o sinal está amarelo, avança. Ela com pressa, acelera no verde. Eles batem. Alice recebe uma mensagem no celular. - Vamos jantar fora hoje, você escolhe o restaurante. Te amo. - Ela não vai responder. Ele não vai ligar o som e hoje, eles não vão cantar juntos.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Mais uma vez

Ela tinha inúmeros motivos para acreditar que dessa vez, tudo ia ser diferente. O céu era sempre mais azul, o vento sempre mais sutil, o sol, mais quente e envolvente que da última lembrança que vinha na cabeça de Alice. Ela tinha certeza que aquela vez era "a vez". A última. De tantas outras tentativas frustradas. Mais uma página virada, outra história montada, misturada e invertida. As páginas trocadas a fizeram acreditar num conto errado. Não exatamente errado, mas não o conto dela. Pelo menos não o que era pra ser contado com seu nome e suas dores. Nem príncipe em cavalo branco, nem vampiro maldito em Volvo, nem mesmo um cara no ponto de ônibus.
As madrastas da vida a faziam lembrar que toda cicatriz era verdadeira. Que cada uma delas contava uma história. Mesmo que essa cicatriz não aparecesse pra todos. Mesmo que não aparecesse pra ninguém, nem mesmo pra ela. E também tinham as cicatrizes que ela optava por fazer. Cada uma lembrando de suas loucuras, seus brilhos, sua liberdade, a rainha branca dentro de si, uma proteção, um enfeite simples. Muitas delas. Nenhuma que alguém soubesse o real significado. Ninguém nunca se interessaria em saber. É o livro que ela escreve que ninguém nunca vai ler. O céu era o mesmo, o vento, gelado e cortante como sempre, o sol, sempre lá, quase não fazendo diferença. Não brilhava mais nem menos. Era o sol mais estático dos últimos 1987 anos. Mais uma vez Alice sonhou acordada. Mais uma vez, Alice estava atrasada.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Volta Alice

De tempo em tempo surge uma nova crise pra Alice. Um motivo a menos pra viver, respirar e escrever. Seis meses. O tempo passa, as coisas mudam, os sentimentos acumulam. O papel e a caneta a cada dia que passa somem da vida, das mãos, da bolsa. Entra o computador, e sai a criatividade. De tempo em tempo surge uma nova razão para Alice escrever. Ela tenta mostrar que é mais do que você vê e menos do que você imagina. Ela diz que não acredita nos clichês e tenta não se contrariar nas próprias crenças. Ela continua, como sempre, fingindo ser natural. Finge não saber da sua presença, ou ausência. Leva a vida como se a vida a levasse. E no fundo é isso que acontece. De tempo em tempo Alice renasce. E aprende a crescer de novo.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Ruim demais pra ser publicado.

E de todos os ditados e frases clichês que me acompanharam até hoje, sobram apenas aqueles que eu nunca segui. Tanta coisa que aprendi, tanta coisa que esqueci, e mais tanta coisa que nunca sequer usei. Uma fórmula matemática, uma quebra de carbonos, uma maneira de identificar cobras peçonhentas de simples cobras coloridas e indefesas. O que ficou disso tudo e mais daquilo que aprendi fora foi a não ter pressa, pois ela é inimiga da perfeição e que, o que os olhos não veem o coração não sente. É fácil decorar, o difícil mesmo é colocar na prática uma coisa tão tosca e tão popular.

(Como eu gostaria que as aulas voltassem logo)

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A história dos animais

É aquela velha história do rato que é perseguido pelo gato que é perseguido pelo cachorro que por sua vez é perseguido por qualquer animal maior que ele. Racional ou irracional. Poderia dar nomes aos ratos e gatos e cachorros, mas complicaria mais ainda minha situação.

Alice quer sair com Ernesto e Rafael enquanto Ernesto não dá a mínima pra Alice e o Rafael dá um bolo nela. Enquanto isso Pedro lembra a Alice do bom tempo que passaram juntos enquanto (h)Enrique liga pra Alice enquanto ela está com o Rafael pra sair com ela sem compromisso algum.
Alice fica brava porque não saiu com o Rafael e chora suas mágoas pro Ernesto que por sua vez não dá a mínima, já que ele não gosta da Alice. -pausa pra pegar o cinzeiro- Alice, enquanto fuma pensa na maneira mais fácil de conseguir o que quer sem mexer muitos pauzinhos. Ela quer que pareça natural.

domingo, 26 de julho de 2009

A história da goteira

Ela gostaria que todos os seus desejos se realizassem. Como o de chover no domingo como ela esperava. E enquanto conversávamos sobre o final de semana e das desventuras e das conversas que tivemos ela se lembrou da goteira insuportável no quarto dela. Lembrou de quantas vezes e quantos profissionais ou não profissionais tentaram consertar, e quantas maneiras diferentes de resolver o problema foram necessárias pra não arrumar nada e, no fim, só piorar a situação. Foi aí que veio a comparação. Ela era a goteira do quarto dela. Aquele problema sem solução, persistente, insistente e totalmente irritante. E assim como a água que pingava do teto em certas épocas do ano, os problemas também surgiam assim. Talvez com mais frequência no inverno e na primavera. Coincidentemente as duas épocas do ano que ela mais gostava. Incrível como ela sempre reclamou do calor excessivo do verão e o vento gelado do outono. Não fazia muito sentido aquela conversa pra mim. Eu faço mais o tipo que escuto e balanço a cabeça enquanto ela era do tipo que gostava de ouvir e dar opiniões. Nunca foi meu forte dizer o que pensava até porque muitas vezes as respostas contradiziam com a vontade real do interessado em ouvi-las. E enquanto ela mudava de assunto e depois voltava pra goteira eu lia a parede forrada de papéis e folhas de livros velhos e histórias que faziam parte da vida dela. Na verdade algumas dessas folhas faziam. As outras eram só pra ocupar o espaço vazio na parede. Interessante ver tudo isso. Foi quando ela começou a falar que, por mais que gostasse da parede, era outra coisa que a incomodava, pois a maior parte do que estava lá era o passado dela, que não condizia com o que ela queria ser hoje. Foi aí que ela lembrou da goteira e lembrou que tem certas coisas que não mudam nunca. Ela acendeu um cigarro, deu uma tragada e continuou a contar sobre o final de semana.

A história da goteira entrou em esquecimento. Pelo menos até a próxima chuva.